Opinião Sincera | Relatives in Descent

capa do álbum "Relatives in Descente"

capa do álbum "Relatives in Descente"

 

"Relatives in Descent" é o quarto álbum da banda de post-punk Protomartyr lançado em 29 de Setembro de 2017. Os álbuns anteriores do Protomartyr possuem uma pegada mais punk do post-punk, diferente do Relatives in Descent, um álbum que inova e ao mesmo tempo se enquadra nas definições do estilo.
O álbum tem como introdução a música “A Private Understanding” com sua melodia que parece que vai se rastejando contando uma história. Uma música introdutória incrível que começa em sua letra com o Joe Casey pedindo desculpa a si mesmo pelas letras que escreveu, já que o álbum todo possui críticas a sociedade. “A Private Understanding” é cheia de referências a livros, como Paradise Lost de John Milton e até a biografia de Elvis Presley, e comenta como tentamos achar algo a mais na vida, e como cada pessoa possui sua individualidade.
“Here Is The Thing” vem na sequência, deixando o ritmo mais movimentado, mas continua comentando sobre o lado difícil das coisas. Agora é um bom momento para comentar como as músicas do Protomartyr progridem melodicamente. A banda cria uma melodia que, ao chegar na metade, muda de alguma forma, às vezes apenas um ritmo ou um novo riff, e em outras vezes, a música muda completamente, fazendo parecer que o ouvinte está em outra música.
A terceira música do álbum, “My Children” começa com uma melodia melancólica e pesada, colocando o ouvinte para baixo, para, consequentemente, crescer em ritmo e ficar completamente dançante, um exemplo do citado no parágrafo anterior. A música fala sobre envelhecer e não possuir nenhum descendente, e o que se deixa pra trás ao morrer. “Caitriona” continua com uma melodia mais agressiva a reclamar sobre família, para se transformar em um riff que fica na sua mente eternamente, como a letra comenta, ironicamente.
“The Chuckler” é uma música incrível emocionalmente, com uma melodia que passa uma alegria com um vazio interno. A letra segue a premissa com a história de uma pessoa que tem um cliente insatisfeito como ponto alto do seu dia, um exemplo de como sua vida ficou desprovida de significado e o locutor apenas ri como se tudo fosse uma piada.
“The Windsor Hum” possui uma melodia que se encaixa com o nome da música, uma melodia que parece um zumbido no ouvido ou “hummmmmm”. Essa música faz um trocadilho com um barulho que se sente ao viajar perto de Windsor e a palavra cantarolar, trazendo à tona uma letra exemplificando como as pessoas cantarolam sobre consumismo, o tornando um zumbido que ecoa no ouvido da sociedade, especificamente, a sociedade dos Estados Unidos.
Após algumas músicas mais "pé-no-chão", “Don’t go to Anacita” traz um pouco de agitação enquanto comenta sobre uma cidade fictícia que possui mais encarregados da lei do que população em si. “Up The Tower” é uma música em que a bateria parece uma pessoa subindo uma escada e batendo numa porta, o que deu a criatividade para o cantor e liricista Joe Casey imaginar um Troll faminto por riqueza que mora no topo de uma torre dourada e a população vai ao seu encontro para destroná-lo. A melodia acompanha a letra como uma história de rádio, com os instrumentos tendo efeitos narrativos.
“Night-Blooming Cereus” é uma música com uma melodia triste que critica sobre algo que também é de difícil digestão quando se para pra pensar: como algumas coisas crescem mesmo depois de tanta tragédia devido à necessidade social ou econômica, como a destruição de uma periferia para criação de estradas para a população como um todo. “Male Plague” distorce a sensação de tristeza da música anterior com uma melodia digna de bandas de punk dos anos 70, que comenta sobre como alguns homens se sentem desiludidos com o progresso da discussão sobre gênero e sentem como se isso fosse um ataque à masculinidade.
“Corpses in Regalia” possui a melhor partitura de baixo do álbum. A melodia é muito memorável e a música é mais uma crítica à sociedade, de como algumas pessoas possuem muito enquanto a maioria possui pouco, mas através do ponto de vista de uma pessoa que começa a se envolver no meio dos influentes. Por fim, “Half Sister” vem como uma homenagem à Joy Division, com sua melodia tão obscura quanto a da tão famosa banda. “Half Sister” fala sobre a relatividade da verdade e coloca a culpa como um espectro que ainda possui sua voz ouvida. A música termina com uma frase que foi mencionada em “A Private Understanding” como se terminasse um ciclo, deixando o ouvinte saber que a verdade está tentando alcançá-lo (She’s trying to reach you). 
O álbum segue um fluxo incrível nunca antes feito pela própria banda. O álbum poderia facilmente ter se transformado em uma única música de 43 minutos. Por mais que o álbum possua apenas 43 minutos, ele promove uma sensação de extensão de tempo, acredito que seja pela melodia mais obscura que acompanha o álbum. Ouvir "Relatives in Descent" e entender suas letras é como assistir um filme denso, com muitas metáforas e críticas a sociedade, não do aspecto externo, mas sim internamente, admitindo que faz parte dessa mesma sociedade.

Para conferir o álbum na íntegra, acesse nossa playlist no Spotify!