Opinião Sincera | Os Invisíveis

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              Publicada pelo selo Vertigo da DC Comics entre os anos de 1996 e 2000, Os Invisíveis foi uma HQ criada pelo excêntrico e experimental Grant Morrison, ilustrado por diversos artistas e, certamente, é uma das histórias em quadrinhos mais complicadas e bizarras já escritas.

              Considerada o maior clássico de Morrison, que também escreveu histórias para o Hellblazer, Quarteto Fantástico, Batman e outros; a HQ conta a saga de um grupo anarcoterrorista conhecido como “Os Invisíveis”, onde sua principal missão é impedir que entidades conhecidas como “Arcontes” invadam nossa realidade e destruam o véu que separa os mundos. Partindo dessa premissa, as histórias abordam temas estranhos e confusos como viagem no tempo, alienígenas, magia, ocultismo, viagens astrais e outros.

              As personagens que acompanhamos nas páginas da HQ são os membros de uma das várias células do grupo e é formado por King Mob, um assassino treinado em artes marciais e poderes psíquicos; Lord Fanny, uma travesti brasileira com descendência mexicana que tem fortes vínculos com a Tlazolteotl, a deusa asteca da purificação e do pecado; Ragged Robin, uma cartomante que afirma que tem apenas 8 anos, apesar de aparentar ser adulta; Boy, uma ex policial de Nova Iorque e especialista em uma série de artes marciais; e Jack Frost, um adolescente delinquente e último a entrar no grupo. Além desses, outros personagens recorrentes são Jim Crow, um rapper que aborda elementos das religiões tradicionais africanas e se comunica com os Loas (entidades do Vodu); e Edith Manning, uma senhora que foi integrante dos Invisíveis em sua juventude na década de 1920.

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              Como já disse, não é uma HQ simples de se ler e digerir. Os diálogos variam em temas como anarquismo, sociedade de consumo, sexualidade, conceitos físicos de realidades diferentes e teoria do caos. Os eventos são bem bizarros: viagens de LSD no meio de um deserto, musgos que permitem ao usuário ver alienígenas, pichações que são usadas como frases para invocação, slogans de programas televisivos se tornando encantamentos, entre outros.

              É impossível falar sobre os Invisíveis sem entrar no assunto do ocultismo, pois o próprio Grant Morrison é praticante das artes ocultas, tendo escrito até alguns textos sobre o assunto. Morrison é adepto da chamada Magia do Caos, um estilo mágico onde os praticantes não se prendem à formas ou simbolismos, tendo como máxima a frase “Nada é verdadeiro, Tudo é permitido” (sim, a frase do Assassin’s Creed). A própria HQ é um trabalho mágico do autor, sendo algo que ele chama de Hipersigilo, ou seja, a história inteira é um símbolo de sua vontade e desejos (se tiverem interesse de saberem mais sobre isso, olhem nesse link), fazendo ela ter um caráter semiautobiográfico (reparem a semelhança do Grant com o King Mob). Outra coisa que mostra a forte relação dos Invisíveis com a magia foi quando a HQ corria risco de ser cancelada e o autor pediu para os leitores se masturbarem desejando que ela não fosse cancelada, desta forma, direcionando a energia para esse propósito. Após isso, o volume de vendas voltou a subir e a história pôde ser finalizada.

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              Os Invisíveis tem uma história totalmente diferente das habituais. Ler uma edição é cansativo, mas também é um convite para refletir sobre nossa posição na sociedade e frente à realidade. Para mim, está entre as melhores publicações da Vertigo, junto à Sandman e V for Vendetta. Concluo com a fala de Tom o’Bedlam para Jack Frost no arco Down and Out in Heaven and Hell:

              “Sua cabeça é como a minha, é como todas as cabeças: grandes o bastante para caber todos os deuses e demônios que já existiram. Grandes o bastante para carregar o peso dos oceanos e das estrelas. Cabe o universo inteiro aí dentro! Mas o que escolhemos para guardar nessa caixa mágica? Coisas quebradas e tranqueiras tristes que brincamos de novo e de novo. O mundo dá a chave e nós tocamos a mesma melodia de novo e de novo e acreditamos que somos só isso”