Opinião Sincera | Mistborn 2ª Era - A Liga da Lei

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              Trezentos anos após os eventos da Primeira Era, Scadrial está modificado. Com a união de Ruína e Preservação em Harmonia, a escassez não é mais a rotina para os habitantes. A tecnologia pode avançar e se desenvolver, passando de uma insípida e suja construção de uma sociedade em um processo de industrialização predatório e incipiente para uma sociedade que pode se dedicar para o desenvolvimento tecnológico, transformações poderosas que se moldam a partir da engenhosidade dos seres humanos que ali existem.

              Se a evolução tecnológica é um ponto fundamental do novo momento que se passa em Scadrial, nossos antigos heróis, Vin, Kelsier, Fantasma e Sazed são lendas. Seres distintos dos outros, os pais fundadores da nova sociedade que são os modelos morais a serem seguidos, tendo suas ações os transformado em deuses (ou semi-deuses), com cultos próprios. De outro modo, os Mistborns foram substituídos pelos Twinborns. Se os Mistborns podiam controlar todos os metais, os Twinborns misturam os poderes da feruquemia e alomancia, entretanto, limitados à dominância de um metal de cada. Os Brumosos ainda são presentes, assim como os feruquêmicos, mas a grande raridade e poder reside nos Twinborn, sendo agora os Mistborns uma lenda distante, de um outro tempo, que reside na imaginação e na fé. Mas como aprendemos, em Scadrial, sempre há mais um segredo.

              Em a Liga da Lei, somos reapresentados ao mundo que conhecemos tão bem dos primeiros livros de Mistborn, entretanto o que nos parecia conhecido está todo modificado. Locomotivas, carros, armas, indústrias e inovação. Não há mais divisão em castas, não há mais skaas, ainda que se mantenha o sistema de nobreza. Se na Primeira Era Scadrial lembrava uma Inglaterra da 1ª e 2ª Revolução Industrial, agora o mundo espelha os Estados Unidos ao final do século XIX, com uma separação clara de costumes entre Elendel (antiga Luthadel), espelhando uma Nova Iorque, e as Terras Brutas, uma alusão clara ao Oeste Selvagem dos Estados Unidos, uma terra sem lei, baseada na força e na coerção.

              É em uma perseguição nas Terras Brutas que inicialmente já somos apresentados a Wax e Wayne, a dupla de agentes da lei que nos guiará pela série. Nessa introdução, somos colocados diretamente dentro de um cenário de ação e de altas apostas contra um potencial forte criminoso e o final desse primeiro capítulo reverbera até o final do terceiro livro: em um duelo final, Wax tem de decidir: ou deixa o criminoso escapar ou terá de matá-lo junto a sua amada. A decisão será o seu fantasma até o final da série.

              Logo após o intenso início da série, Wax decide voltar para cuidar das contas de sua casa, a Landrian (isso mesmo, Wax é decendente de Brisa). A casa está em plena bancarrota por uma suposta má administração de seu tio, que chefiava a casa, tendo ele que assumir a tarefa administrativa logo após a morte dele e de sua irmã em uma viagem. Nesse processo, Wax definha. Usa o trabalho burocrático como um meio de auto-martírio e de não se envolver mais como um agente da lei. É assim que somos apresentados a duas importantíssimas personagens da série, as primas Marasi e Steris. Wax se vê na posição de ser um homem por volta dos 40 anos ainda não casado e tendo de se vincular a Steris para salvar sua família do desastre financeiro. Steris é uma mulher aparentemente fria e calculista, em que a vida está toda planejada em todos os mínimos detalhes. Para ela, o casamento é apenas uma obrigação contratual. Ao contrário dela, temos Marasi, uma jovem recém-formada em Direito, com grande idealismo e admiradora do trabalho de Wax e Wayne nas Terras Brutas. Marasi representa o idealismo dos jovens, a empolgação em querer modificar o mundo e forte vontade de que seu conhecimento acadêmico transforme o mundo em um lugar mais seguro.

              É a partir de Marasi e Steris que passamos por interessantes debates sobre o papel da mulher na sociedade, ainda mais em uma sociedade totalmente machista como a de Scadrial. Apesar de Vin ser um modelo para as mulheres, seu legado de poder e independência é relegado a poucos. Marasi representa a ruptura em relação ao patriarcado, sempre confrontando os homens superiores e mostrando que seu sexo não significa os limites de seu conhecimento ou capacidade, sendo talvez o principal cérebro da equipe. Ao mesmo tempo, é a primeira mulher a entrar no aparato policial de Elendel. Steris também representa um debate sobre o feminino muito interessante: o da mulher que mantém certos costumes da estrutura vigente, mas que não se submete livremente a eles, sendo suas ações baseadas em suas preferências e não imposições de outros. Esses dois debates são levados a cabo e evoluídos durante toda a série, sendo um dos pontos mais altos da Segunda Era.

              O outro grande personagem da série é Wayne. A limitação aqui de análise sobre o personagem vem a partir de que só fora lido a versão em inglês dos livros, faltando uma observação acerca da tradução de suas falas. A personalidade de Wayne é marcada por seu linguajar, recheada de sotaque - e mudanças deste aspecto também - e de expressões “interioranas”, que talvez seja um dos aspectos mais ricos do personagem. É o alívio cômico da série, com interessantes pontos de vista “fora da caixa”, que, por vezes, confundem até os seus companheiros. Ele é o mestre dos disfarces, com forte capacidade de observação e atuação, utilizando esses pontos a favor das investigações. Outro ponto forte do personagem é ser ele aquele que traz equilíbrio à seriedade e sisudez de Wax, ainda mais no início desse livro. E o porquê dele se recusar a usar armas é aquele ponto de dramaticidade característico de Brandon Sanderson, em que seus personagens sempre vão um pouco além de seus arquétipos.

              Esse primeiro volume da Segunda Era fora inicialmente planejado não como a primeira parte de uma nova série, mas sim um spin-off no futuro de Scadrial. Entretanto, Sanderson acabou por “tomar gosto” pelos rumos da história e resolveu transformar a Segunda Era em uma trilogia mais um livro de introdução. A Liga da Lei é justamente essa apresentação de mundo e personagens, em uma aventura que é autocontida, mas que ainda dá insumos para uma possível sequência. A trama em si é simples, é a resolução de roubo de trens e sequestro de mulheres da corte, em que Wax entra por conta de Wayne e acaba por também se tornar uma jornada de autoconhecimento. O tom da obra é mais leve que a da Primeira Era, com maior número de piadas, advindas majoritariamente de Wayne, e com uma cadência aventuresca bem interessante, ao se tratar de roubo de cargas. Há elementos de filmes de Velho Oeste bem marcantes, como a terra sem lei, a dicotomia cidade-campo, a lei do direito e a lei da força, etc. Essas facetas tornam o livro, de quase um terço do tamanho médio dos livros da Primeira Era, um romance agradável e divertido, com a possibilidade de expansão e tradicionais reviravoltas “Sandersonianas”.