Opinião Sincera | Mistborn 2º era - As Sombras de Si Mesmo

 

              Em As Sombras de Si Mesmo descobrimos mais sobre o passado de Wax e Wayne, enquanto que ambos, agora membros especiais da polícia de Elendel, tem de resolver o caso do assassinato de grandes políticos cujo assassino tem habilidades misteriosas com a possibilidade de uso de Hemarlugia. O livro continua meses depois do final de a Liga da Lei e passamos a entender melhor o que motivou Wax a continuar tanto tempo nas Terras Brutas, o início de seu relacionamento por lá e como foi construída a paixão desse personagem. Daí já notamos alguns padrões que se seguem na série. Um deles é o flashback para aprofundar as camadas psicológicas dos personagens e, além disso, usar informações dadas como elemento fundamental das viradas da trama. Para quem é acostumado com a literatura de Sanderson, esse tipo de elemento já é bastante conhecido, mas, para os novatos, pode ser algo até surpreendente.

              Neste livro temos a grata volta de alguns personagens da Primeira Era. Reaparece TenSoon e a sua raça, os Kandras. A evolução dos Kandras na sociedade é impressionante já que, se anteriormente eles eram espiões-escravos da nobreza, agora, como quase todos os elementos anteriores à Ascensão, são considerados seres lendários. Na Segunda Era, os Kandras são serviçais de Harmonia, já que não há mais a dualidade Preservação-Ruína. E, a partir desse uso dos kandras é que vemos a caça de Wax e Wayne a um kandra renegado suspeito de ser o assassino misterioso.

              Aqui se evolui conjuntamente com a trama policial também a trama religiosa e catastrófica dessa Segunda Era. Esse é outro ponto comum das obras de Sanderson: uma das camadas de ação é corriqueira e mundana, enquanto também se sucede uma disputa épica e de grandes proporções no campo místico religioso. Ambos os conflitos não são contraditórios, e sim mutualmente constitutivos. Esse elemento e drama em dois - ou até três, quatro níveis - é algo que Sanderson traz para suas obras que fazem parte de seu universo compartilhado, a Cosmere. Porém, não tenha como opinião que esse método de construção de trama “complexifique” demais o desenrolar da estória. Não impede a compreensão e entendimento geral, mas oferece um prêmio para os leitores mais atentos e que seguem fielmente suas obras.

              Para se referenciar melhor à Primeira Era, também voltamos a ter um contato mais intenso com o povo de Terris. Na evolução temporal que se consagrou, o povo terrisano se mantém em um território isolado da população em geral em Elendel, um local no qual Wax passou parte de sua adolescência, antes de se lançar nas aventuras das Terras Brutas. Aqui vemos como o povo de Terris pensa diferentemente sua religião em relação à população em geral, que louvam para o Sobrevivente (Kelsier deificado). E esse conflito se mantém interno dentro de Wax: ser um membro de Terris e um membro da nobreza de Scadrial.

              Neste livro também nos aprofundamos na trama que recorre a “trilogia+um” do Sanderson. A busca do grupo chamado de “Set”, que busca trazer Trell, um Deus marginalizado antes do Catascendro (ascensão do Senhor Soberano), como o objetivo de limpar o mundo, considerando a ordem imposta por Harmonia como um ultraje à própria natureza. Um desses planos também é buscar a formação de Nascidos da Bruma, por meio da reprodução forçada de mulheres com sangue Brumoso. Assim, além de lidar com um Kandra assassino, Wax, Wayne e Marasis terão de líder com um grupo terrorista que deseja limpar a existência de Scadrial como é conhecida.

              É neste livro que vemos a evolução da seriedade da trama de Sanderson. Especialmente no final do romance, em que presenciamos um momento emocionante, capaz de arrancar lágrimas do leitor. Um momento de amor, rancor, um debate sobre livre-arbítrio e controle divino sobre a ação dos indivíduos. Um momento em que o autor lança para o seu leitor a pergunta: viver sob controle de um ser superior ou morrer livre em consciência?