Opinião Sincera | Mistborn 2ª Era - Braceletes da Perdição

 

              A evolução da trama de Sanderson no terceiro livro da Segunda Era de Mistborn chega ao seu ápice. A combinação de discussão acerca da política, religião e moralidade que ronda toda a obra de Mistborn encontra, neste exemplar, um nível similar àquele que estávamos acostumados a ler na Primeira Era. A subida da tensão e seriedade da Segunda Era encontra a sua fatia mais densa. O questionamento aos direcionamentos de deus, um deus que se vê limitado para que haja o equilíbrio. Todos são pontos que vão ganhando espaço e nível de discussão com o decorrer da estória.

              Neste terceiro livro, encontramos novamente Wax amargurado e relutante em agir. Essa postura é modificada quando, ao investigar os caminhos do “Set”, ele encontra pistas de onde se encontra sua irmã, dada como morta há anos. Por meio de uma missão diplomática e policial, Wax se lança com seu grupo para uma região separatista e crítica à política de Elendel, tendo de ouvir as demandas políticas e conter um forte conflito religioso. Em meio a essa investigação, o grupo descobre o novo objetivo dos terroristas do Set: a busca pelos Braceletes da Perdição. Esses Braceletes dariam o poder do Senhor Soberano, a junção de um Nascido da Bruma e um feruquêmico completo, alcançado um poder próximo ao da Ascensão.

              Possivelmente este seja o livro com maiores elementos de investigação da série. Vemos também a grata surpresa da inserção de Steris à equipe, que havia sido deixada de lado nos outros livros e agora se torna um membro valoroso e, surpreendentemente, divertido da equipe. Presenciamos também o amadurecimento de Marasi, a transição de uma jovem insegura e sonhadora para uma mulher confiante e conhecedora de si, um drama similar ao que passou a Vin no final da Primeira Era (o paralelo é claro e posto no próprio livro). Dos três livros produzidos até agora, este é o que mais tem protagonismo feminino e que é direcionado principalmente pelas tomadas de decisão das mulheres. Não é forçado para ganhar apoio dos leitores mais ativistas, é uma evolução natural dos próprios personagens e condizente com a trajetória de Sanderson, que sabe como tratar o feminino de múltiplas facetas.

              Um ótimo elemento do livro também é a ampliação do espaço conhecido de Scadrial, com a apresentação de locais e povos fora de Elendel. Somos apresentados a uma nova população, os de Malwish, a partir do personagem Allik Neverfar, em que as construções navais lembram um zepellin, funcionando a partir da alomancia. Essa população tem um distinto mito fundacional, a partir de um Soberano, que deu a eles a capacidade alomântica e que tem o costume de usar máscaras como instrumento de pudor, tradição que dá bons momentos de humor dele com o grupo de Wax. As novas tecnologias demonstradas por Allik aumentam a ansiedade dos fãs mais aficionados de Brandon Sanderson por uma Terceira Era, que já teve seu anúncio e que poderá ser realizada em um ambiente futurista.

              A cadência do livro é muito equilibrada, como a de todos os outros e cujo tom, curiosamente, lembra demasiadamente o primeiro capítulo de A Liga Lei: a tensão e o embate constante. Entretanto, a temática básica do livro varia, juntamente com o dos outros livros: o primeiro é um livro de assalto, o segundo, uma investigação policial e o terceiro, um resgate. A variância de gênero é uma das provas da capacidade de Brandon Sanderson de passear por vários estilos e explorar as múltiplas facetas que o seu mundo proporciona.

              A má notícia que acompanha o final do livro é que a sua sequência, The Lost Metal, ainda não tem data de lançamento, podendo os leitores mais vorazes ficarem órfãos das aventuras em Scadrial. Se o leitor ainda não leu toda a Cosmere, o término da Segunda Era é o momento perfeito para se aprofundar nesse multiverso. Fica a recomendação de, após ler os Braceletes da Perdição, correr atrás de Mistborn: Secret History e dos livros do The Stormlight Archive. É um ótimo ponto de partida para começar a montar os quebra-cabeças que Sanderson monta em seus livros e entender uma terceira camada de suas histórias: a disputa pelo multiverso da Cosmere. A Segunda Era é uma grata surpresa e um show editorial da Leya ao publicar os três livros de uma vez em dezembro de 2017. O ritmo acelerado e o curto tamanho não comprometem o aprofundamento dos personagens nem o desenvolvimento deles. Entretenimento com algo a mais é uma marca registrada do Brandon Sanderson em que a saga Mistborn nunca decepciona.