Opinião Sincera | Deuses Esquecidos

 

              Se, em o Andarilho das Sombras, Eduardo Kasse nos abre para seu universo de mescla entre ficção histórica e fantasia, no segundo livro da sua série Tempos de Sangue ele a consolida. Deuses Esquecidos não é exatamente a continuação de Andarilho, e sim uma segunda história na qual somos apresentados a outros personagens importantes do universo. A opção de escolher entre qual dos dois começar é prerrogativa do leitor, sendo Deuses uma opção mais curta e o Andarilho uma versão mais completa. Não obstante, todas as duas obras são fundamentais para a série e compreensão deste universo que é bastante calcado na nossa realidade medieval.

              Diferentemente de o Andarilho, nos afastamos da Inglaterra medieval e de Harold Stonecross e somos guiados pelo autor na trajetória de Alesso pela Itália medieval. Alesso é um pai de família, agricultor e devoto do catolicismo que, por certo acaso do destino, se vê como vampiro e forçado a confrontar a realidade e a sua fé. Pela escolha de uma jornada mais curta e com os pontos fortes de sua narrativa ainda melhor trabalhados, Kasse transforma o mito do vampiro em algo complexo e além daquilo que é cenário comum, especialmente por se tratar de uma criatura já tão bem trabalhada na cultura pop.

              O sentimento que guia Alesso em sua trajetória é a culpa. A culpa originada pelas mortes que ele causa e pela necessidade e prazer que ele sente ao cometer tais atos. Alesso, como personagem, cria um forte senso de empatia com o leitor, que é imediato, seja por sua inocência, resiliência na fé, ou por suas dúvidas ao lidar com a tragédia. A narrativa também constrói uma estrutura de redenção do próprio personagem, fazendo com que sua transformação em besta faça com que ele mantenha sua humanidade e sanidade por meio da sua fé. Esse pilar de sustentação moral é o que faz a obstinação de Alesso ser cativante, algo que poderia ser pedante, e traz algo de real e plausível para quem, por meio de um acidente, se põe na situação entre ser o bem ou o mal- e até questionar se, ao fazer o mal, ainda se pode estar servindo ao bem.

              Como esperado, o tema religioso trabalhado nessa obra, como de costume na série, não se limita apenas ao personagem principal. As cenas que envolvem personagens eclesiásticos sempre retratam, como costume do autor, a devassidão, hipocrisia, censura - sentimental, sexual e política -, e corrupção que afloravam no âmbito da Igreja Católica no período medieval. Por vezes essa representação beira ao caricatural e repetitivo, se considerado especialmente o decorrer da série. Ainda assim, Deuses Esquecidos nos dá uma das cenas mais catárticas da série, envolvendo um padre que perde total sentido da realidade, uma vampira e um incêndio. Um capítulo digno de um episódio das melhores séries.

              Outra marca presenciada nas obras de Kasse, que também está presente nesse livro, é a de não deixar pontas soltas. Essa recompensa ao leitor mais atento - que já “pesca” os detalhes - ou surpresa para aqueles que se deixam passar, cria a sensação de fechamento de ciclo e de ganchos de modo satisfatório, sem pontas desnecessárias abertas para os outros livros.

              No quesito de cenas de sexo, em relação ao livro anterior, há uma substancial diminuição de recorrência das mesmas, também derivada da resiliência religiosa do personagem principal. As cenas de sexo tórrido e sujo continuam, mas com mais equilíbrio que em o Andarilho, dando uma sensação de menos repetição - seja de enredo e de vocabulário - particularmente ao descrever as ações envolvidas nos atos.

              As histórias de Andarilho das Sombras e Deuses Esquecidos se encontram dentro do terceiro volume da série, Guerras Eternas. Talvez a maior expectativa gerada ao chegar no final do livro seja aguardar o encontro entre Harold e Alesso, suas personalidades antagônicas e seus poderes equiparáveis. Enquanto Alesso, em busca de redenção, caça seus pares em nome da Igreja, Harold vive pela profanação dos pilares católicos e pelo hedonismo puro.

              Deuses Esquecidos, por ter um teor mais complexo que os outros livros da série, representa o melhor que ela pode apresentar: acuidade histórica e a exploração do mito do vampiro por meios não-convencionais. Ao leitor menos experiente, pode parecer estranho o segundo livro não mostrar o personagem principal da série e querer pular já para o terceiro. Recomendo aqui que não. A experiência de Deuses Esquecidos, para além de ser um complemento necessário para o entendimento da série, é enriquecedora e muito divertida, explora-se tantos vieses e matizes da natureza humana que a leitura é preconizada.