Opinião Sincera | The End of the F**king World (Netflix)

 

               The End of the F**king World é uma minissérie britânica exibida pela rede de streaming Netflix. A série é baseada na sequência de quadrinhos homônima de Charles S. Forsman e conta com 8 viciantes e sufocantes episódios.

              A trama retrata com humor negro, sadismo e um “quê” de absurdismo. A história de dois adolescentes que – mediante a uma situação adversa – se unem apaixonados contra todo o mundo e partem em busca de um lugar que será por merecimento só deles.

              A série mostra a história de James (Alex Lawther), 17 anos, que leva uma vida pacata e sem graça; morando com seu pai Phil (Steve Oram) no qual ele tem uma vontade enorme de dar um soco na cara. Sua mãe não é presente em sua vida e vamos entender lá na frente como isso é um ponto chave para o desenrolar da série. Claro que nem precisamos dizer que James se acha (e fortemente pode ser) um psicopata. Ele tem prazer em matar, por diversão, animais no horário de almoço. Não se escandalize, a série já começa sem mimimi. James não possui senso de humor algum e seu rosto expressa apenas uma expressão para tudo. E abro um parêntese para a atuação do Alex Lawther. Ele é famoso por personagens que precisam demonstrar esse ar seco de um dia nublado e ele o faz muito bem! Destaque para o papel como Kenny em um dos episódios de Black Mirror, onde ele interpreta um menino que teve sua webcam hackeada acabando assim por vazar tudo de sexual que ele fazia em frente ao computador. Por isso, o hacker o chantageia a fazer muitas coisas loucas para não espalhar seu vídeo em rede mundial. (VALE A PENA CONFERIR!!!!) Mas, voltando para James, o garoto mostra desde o primeiro minuto de aparição que tem algo de errado com ele e isso logo é explicado com um sim por meio de suas matanças de animais e etc. Mas chega um dia que ele encontra alguém que poderia ser perfeita para o plano maléfico dele (ou não)!

              E aí é que ele conhece, em seu colégio, Alyssa (Jessica Barden). Debochada e sádica, ela é uma bomba pronta para ser explodida a qualquer momento. É nova na escola e compartilha das dores de ter um padrasto abusivo e uma mãe intolerante, além disso, vive a fase chata da aborrecência, inclusive irritadiça com tudo e todos a sua volta – o que piora a sua tentativa de adaptação ao novo colégio. O pai de Alyssa é um sujeito distante e bem fantasioso para ela, enquanto a sua mãe dá somente atenção aos seus novos irmãos.

               Em meio ao caos dessas duas histórias pesadas é que eles têm o primeiro contato. James só se aproxima porque vê em Alyssa uma possível primeira vítima (ele se vê realmente como um psychokiller) e ela vê nele um bonequinho de estimação e de experiência social. James começa uma aproximação fingindo estar interessado e apaixonado, e isso é muito divertido. Ele parece calcular todos os movimentos e frases que serão ditas para o approach, além de ser muito inexpressivo e automático. As primeiras falas entre os dois são uma chuva de frases prontas e monossilabamento. Mas aos poucos vai surgindo uma “empatia da infelicidade” entre os dois, e eles começam a apertar os laços.

              A perspectiva tanto de James como de Alyssa é o que une e ajusta um perfeitamente ao outro. Eles estão entediados com o colégio, a cidade e até internamente. Compartilham de problemas familiares e da falta de apoio maternal/paternal em suas vidas. E é justamente na procura dessa falta emocional que eles “extravasam” para o mundo suas personalidades e comportamentos e decidem fugir.

              Além de entendermos que a arte imita a vida, e que essa arte (como na série) existe para contar uma história e por/para um propósito, The End of the F**king World retrata o quão prejudicial é para os mais novos a falta. Mas não somente a falta de um parente que morreu ou está longe, a falta de um equilíbrio da/na vida; um equilíbrio que não é compensado por nenhum dos lados familiares dos personagens. E a questão central da série se dá na ideia filosofal de que o homem está sempre buscando o repouso, o equilíbrio.

              É passando por esse aspecto que a série começa como uma comédia sádica e termina feroz e, abruptamente, como um drama melancólico e reflexivo. A minissérie começa com os jovens dispostos a “mudar” de vida, e termina rápida, dinâmica e objetivamente ácida.

              Por fim, não poderíamos deixar de falar da cirúrgica trilha sonora que embala os atos de The End of the F**king World. Repleta de músicas da década de 60, mostra a conexão meio “old” que existe na série junto com a onda liberal da década de 70 que é resgatada com as músicas, encaixando-se perfeitamente na história. Os temas variam desde o R&B americano, passando pelo country, rockabilly, boleros franceses até o famoso punk rock britânico; conversando sempre com o humor e/ou condições comportamentais dos personagens. Além do tema da série ter sido composto por Graham Coxon – guitarrista do Blur; ou seja, tudo em casa!

              A série é como uma dose letal de acontecimentos simultâneos, repentinos e devastadores. É realmente como uma corrida viciante, bizarra, sádica, reflexiva, maluca, entusiasta e necessária da história de dois adolescentes tentando encontrar o universo numa casca de noz.

 

Confira o trailer logo abaixo e corre pra assistir!