Opinião Sincera | O último reino

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Se há um autor que pode ser intitulado como referência em ficções históricas, sem dúvida, é o britânico Bernard Cornwell. Grande parte de sua fama é fruto de grandes sucessos narrando o mito do Rei Artur de uma forma original, como poderia ter ocorrido caso o mito fosse historicamente exato, e também por conta da vasta série Crônicas Saxônicas, que soma, até o momento, 11 volumes lançados e ainda sem previsão de chegar ao seu fim.

Crônicas Saxônicas narra a saga da formação do Reino da Inglaterra durante o século IX e X, durante a união dos reinos presentes na ilha britânica durante um período em que a Grã-Bretanha estava dividida entre saxões, bretões e dinamarqueses. A série utiliza a narração do personagem fictício Uthred de Bebbanburg, um senhor da guerra ao final de sua vida que, durante esses livros, narra suas aventuras e impressões de como esse reino foi formado e seu papel nessa saga épica. Uthred é um personagem fictício, inspirado em histórias da família do próprio Cornwell, unindo a vontade de homenagear sua herança, assim como remontar a criação de sua nação. Nisso, Cornwell cria uma premissa instigante acerca de Uthred: um jovem saxão criado por dinamarqueses, mas que se vê forçado a lutar contra o povo que amou e a defender um rei que ele odeia.  Pode parecer spoiler, mas esse detalhe está logo na primeira página do livro e é a principal tônica e linha mestra da narrativa da série.

A vivência de Uthred entre os dinamarqueses não é tranquila, nem harmoniosa. Primeiramente, Uthred só é criado pelos dinamarqueses pois eles matam seu pai e irmão, deixando-o órfão. Após isso, ele tem de se provar como um guerreiro e alguém digno de se encaixar na cultura nórdica e ser reconhecido como membro do clã que o adotou. A jornada de Uthred em O Último Reino é basicamente uma de reconhecimento, em que ele fica sempre duelando entre o seu amor pelos dinamarqueses e o laço da terra e juramento aos saxões. Nisso vale lembrar o personagem que perseguirá Uthred em boa parte de sua história: o rei Alfredo. Alfredo, rei que deu início à criação da Inglaterra, é, dentro de vários modos, o maior inimigo de Uthred e, ao mesmo tempo, seu maior aliado. E o duelo entre os dois é o que carrega em boa parte também as vastas discussões sobre a moral cristã e a praticidade pagã dos nórdicos.

 Alfredo e vários dos outros personagens são reais. Claro que Cornwell tem a liberdade para romantizar atos e inserir personalidades que se encaixam ao seu propósito de criar uma narrativa épica. A precisão histórica do autor, com as salvaguardas de uma precisa nota histórica sobre as liberdades tomadas e fontes consultadas, trazem valor maior ainda para entender e imaginar como realmente pensava a mente medieval. Se tem algo pelo que Cornwell também é famoso é pelas descrições detalhadas e viscerais (literalmente) das batalhas e das paredes de escudos. A guerra não é descrita como algo glorioso e organizado. É um caos sujo, de dejetos, suor, sangue, bebida e loucura. Para quem tem estômago fraco, vale ter um pouco de cuidado, pois há muita descrição escatológica. Para os mais indiferentes, ele te joga no meio da batalha, sentindo cada pontada de espada em seu escudo e dor dos golpes descritos.

Como início de uma longa jornada, há de se ler O Último Reino com bastante atenção. Muitos elementos, frases e personagens que podem parecer triviais em um primeiro momento, podem reaparecer e ter mais destaque nos volumes posteriores. Cada ação tomada por Uthred nessa primeira fase da série, que narra até os seus 20 anos, repercutirão por toda sua saga, portanto, vale lembrar e anotar alguns detalhes, pois as surpresas futuras compensam o esforço.

O estilo de escrita de Cornwell também deixa rastros claros de seu legado e que podemos transportar até para autores brasileiros altamente influenciados por ele. Eduardo Kasse e Leonel Caldela talvez os que mais rapidamente chegam à mente, especialmente pela descrição crítica perante a hipocrisia e dominação das instituições religiosas, a crueza nas descrições das batalhas e do ponto de vista bélico e guerreiro no desenvolvimento do ponto de vista de seus personagens e na tomada de rumo das histórias. As séries Tempos de Sangue de Kasse e Crônicas de Urag de Caldela representam bem essa inspiração do estilo de Cornwell em suas escritas.

O Último Reino é talvez a porta de entrada mais acessível para ficção histórica que se possa ter. Combina muito bem humor, guerra, trama política e certa pitada de romance. Há muitas reviravoltas e, prestando atenção, a consolidação de uma fórmula de narrativa que se repetirá pelos próximos livros da série. Para não estragar a surpresa, a descrição dessa fórmula fica para críticas posteriores da saga. Além de 11 livros – 10 já publicados no Brasil pela editora Record-, Crônicas Saxônicas está sendo televisionada na série The Last Kingdom, dando vida a essa ótima história que, para quem está com saudades de Game of Thrones, vale dar uma chance.