Opinião Sincera | Demônios da Goetia em Quadrinhos

 

Após alguns meses sem escrever, venho trazer a conclusão (e que conclusão, diga-se de passagem) da trilogia “Cores do Horror” da Editora Draco. Lançado em 2017, e também organizado por Raphael Fernandes, a saga de histórias em quadrinhos brasileiras de terror cósmico se encerra com Demônios da Goetia em Quadrinhos. Desta vez, conhecemos através da arte de quadrinhistas nacionais até onde vai a corrupção humana para obter aquilo que desejam. Afinal, a tentação é vermelha.

Mas que peste é Goétia? A Ars Goetia, do grego “Uivo” é um sistema de evocação de demônios (ou espíritos, dependendo da interpretação) descrito no livro Lemegeton, também chamado de “A Clavícula de Salomão”, um grimório do século XVII que dá instruções de conjuração e controle de 72 entidades que, de acordo com a lenda, o Rei Salomão controlava. Esses seres realizam diversas tarefas para o seu conjurador de prover o conhecimento sobre ervas e línguas até a morte de rivais, e cada um deles tem sua própria imagem e personalidade: de Agares, um idoso ranzinza montado num crocodilo até Astaroth, um brutal rei montado num dragão.

Ao ler o nome dos 72 goéticos, é bem provável que vá achar alguns deles familiares. Isso se deve a imensa quantidade de referências a eles em diversas obras na cultura pop. Jogos como Castlevania, Final Fantasy e Soul Calibur; em Animes/Mangás como Berserk, Magi: Labyrinth of Magic e High Scholl DxD; nos RPGs Dungeons & Dragons e Vampiro: A Máscara; nas HQs Promethea e Capitão Marvel; e na série Sobrenatural. Se formos considerar as referências musicais, nem caberia listar (vocês não tem ideia da quantidade de bandas de Black Metal com referências a essas entidades).

Das três partes da coleção, Demônios foi a minha favorita. Os contos abordaram vários dos demônios em múltiplos contextos: de um mago tentando salvar seu amado de uma doença incurável pela ciência dos homens até uma rebelião no desumano manicômio de Barbacena/MG, passando por um homem lutando contra o luto após a morte de um ente querido. Notei que, com o passar dos volumes, as narrativas vão ficando mais sombrias, e as artes, mais violentas. Nas histórias aqui contadas, a humanidade mostra o quão podre ela é e como ela busca figuras para culpar por seus atos egoístas. Gostaria de destacar os contos YHVH (Alexey Dodsworth e LuCAS Chewie), Mestre da Arte (Caio H. Amaro e Flávia Lima) e Semente (Erick Santos Cardoso e Kaji Pato). Vemos também aqui a volta de alguns artistas que participaram dos volumes anteriores: Lucas Chewie, Raphael Fernandes, Victor Freundt e outros.

A indústria de HQs no Brasil existe e funciona a todo vapor. Temos roteiristas e artistas fantásticos que estão entregando um material bem bacana (e tenho certeza que o Raphael Fernandes não precisou conjurar um demônio goético para isso kkk) e temos que abandonar o quanto antes esse preconceito de que a produção nacional é ruim ou inferior e apoiar nossos produtores para torná-la ainda melhor. Finalizo com o maior conselho que nos é transmitido nesse álbum: cuidado com o que deseja, pois pode conseguir.