Opinião Sincera | Narcos: México

 

Não, essa não é a nova temporada de Narcos. Pela abordagem da Netflix de separar ela da série original no seu catálogo, ela se encaixa mais como um spin-off. Claro, o tema central (narcotráfico) e alguns elementos da série Narcos original ainda se encontram aqui. E sim, os diretores executivos continuam os mesmos, inclusive o brasileiro José Padilha. Ou seja, mesmo que a série se passe em um lugar novo (mas com o mesmo nível de corrupção ou pior que a Colômbia), com personagens novos, e seu protagonista tenha um comportamento totalmente diferente do Pablo Escobar, ainda temos a sensação de que é a mesma série, mas com uma clara evolução.

O novo foco dessa temporada é o narcotraficante Miguel Ángel Félix Gallardo, interpretado pelo ator mexicano Diego Luna. Sua atuação é um dos destaques da série, pois é a antítese perfeita do que era Escobar. Enquanto Pablo era aquele personagem caricato, impulsivo, violento e que só andava vestido como seu avô, Miguel é o típico businessman, do tipo que se um fio do seu cabelo com bastante gel estiver fora do lugar, ele já puxa o pente para ajustar. Miguel é o total oposto de Escobar, ele é frio, calculista, evita violência (não quer dizer que não a use), só anda de terno e tem um escritório em um hotel de luxo, mas nem sempre foi assim. Ele era um policial corrupto na famosa cidade de Sinaloa e, graças às suas conexões, consegue reunir os maiores traficantes do México e formar o poderoso cartel de Guadalajara, atuando como o “CEO” dessa organização, transformando o que eram pequenos produtores de maconha na maior organização criminosa do mundo à época.

Tá, mas e o Pablo Escobar aparece? Sei que essa é a pergunta que todo mundo vai fazer antes de assistir. ATENÇÃO SPOILER. Sim, ele aparece, mais uma vez interpretado pelo Wagner Moura, mas, mesmo com uma curtíssima aparição, ele muda não só todo o rumo da série, mas no mundo real também alterou a forma como se encaravam as drogas. É aí que entram os americanos e o DEA, pois a série não só conta como esse grande cartel se formou, mas também como o DEA surgiu, cresceu e ganhou poderes dentro e fora dos EUA. O responsável por toda a investigação e descobertas chaves sobre o esquema foi o agente americano Kiki Camarena, vivido pelo ator Michael Peña que, apesar da boa atuação, foi extremamente prejudicado por um roteiro defeituoso, onde sua atuação como personagem principal e um dos grandes catalisadores de toda a trama foi negligenciada, com aparições tímidas, não dando espaço para um maior desenvolvimento do personagem. Definitivamente, a atuação e o desenvolvimento do personagem vivido por Pedro Pascal na série Narcos original, é incomparável.

Tecnicamente a série é fantástica, com uma fotografia bem ajustada, e as paisagens que cooperam bastante com isso. É lindo de se ver principalmente as cenas mostrando as enormes plantações de maconha e os takes do horizonte das cidades mexicanas. Mas é perceptível o padrão que foi mantido diante da série original, não há nenhuma novidade, mas um aprimoramento muito bem-vindo.

Mas aí vai a pergunta: Vale a pena? Sim, muito. Apesar de não apresentar grandes novidades diante da série original de fato, não espere a reinvenção da roda. Há uma clara evolução narrativa, pois tudo é explicado da melhor forma. Apesar de defeitos pontuais, o roteiro é bem amarrado, deixando poucas pontas soltas e com uma enorme capacidade de desenvolvimento, é tanto que a série já foi renovada para a 2º temporada, pois o conflito no México é muito mais complexo do que o ocorrido na Colômbia, tendo conteúdo para, pelo menos, 4 temporadas. Uma clara demonstração de que a série ainda tem muito o que mostrar é que o famoso traficante “El Chapo”, de quem se escuta falar nos jornais até hoje, é mostrado ainda jovem na série, aprendendo os fundamentos do negócio e crescendo na cadeia de poder. Enfim, Narcos vale a pena a maratona, nada de novo, mas nem sempre isso quer dizer algo ruim.