Opinião Sincera | The Baggios ao vivo no CCSP 14/03

 

A experiência de ver uma banda de sucesso regional fora de seu “habitat” é algo muito curioso. Nacional e internacionalmente reconhecidos (indicados ao Grammy Latino em 2016), a The Baggios é uma das grandes revelações do rock brasileiro, com grande força no nordeste, mas ainda restava uma dúvida naquele que vos escreve: será que a banda causa o frisson que tem em casa fora do nordeste?

Nesse sentido, tem dois pontos que deveriam ser provados. O primeiro é da própria banda, se há a animação corriqueira de seus shows e se o repertório é tocado com primazia. O segundo é o teste do público, checar se este canta as músicas, vibra e pula com o que está sendo tocado.

A banda, como sempre, gabaritou o primeiro ponto. A The Baggios está em um nível de maturidade de show e composição impressionante. A banda que começou como um duo, desde o terceiro disco (Brutown) tornou-se um trio, com a adição do tecladista Rafael Aragão, iniciativa que torceu o nariz dos fãs mais apaixonados pelo Blues Rock raiz e de garagem. Estávamos todos enganados. Os teclados de Rafael dão uma ambiência no som e preenche os espaços que complexifica mais as composições, dando também um show nos solos e também servindo de baixo para libertar o Julico no palco. E como esse ser humano está cada vez melhor na guitarra. Cada solo muito bem realizado, em uma pegada absurda, variando do blues cadenciado para solos de ciranda. As interações dele e do Rafael nos solos são sensacionais (vídeo abaixo). Pena que no show a já clássica semi-acústica vermelha foi aposentada.

Foi também o momento de checar como o novo CD, Vulcão, se comporta ao vivo. E sempre, tal qual as melhores bandas, o disco cresce absurdamente no palco. A presença de Pacato, percussionista que gravou o álbum, complementa a pegada rockeira de Perninha na bateria, trazendo um misto de brasilidade e tribalismo onde nos primórdios era blues rock. A pegada mais naturista do Baggios nesse cd não apenas se ouve, nas cada vez mais tropicalistas composições (tropicalismo do século XXI?), mas especialmente se vê, marcadamente nos panchos utilizados pelos membros da banda (saudades chapéu de inverno do Julico). 

Para complementar com chave de ouro, a participação de Sebastian (Francisco el hombre) foi sensacional, além de mostrar para todos que a arte não é neutra. No dia do aniversário da tragédia que culminou no extermínio politicamente motivado da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, houve uma forte homenagem para essas vítimas da violência do país, somando também músicas com homenagens a Brumadinho e Mariana, cidades atingidas pela negligência de empresas mineradoras em Minas Gerais. E, por fim, críticas ao atual presidente do Brasil, sendo “elogiado” de alma sebosa e com dedicatória em relação à música Saruê (Brutown).

Se a banda não decepciona ao vivo, o público, foco do nosso segundo ponto, foi vergonhoso. Primeiramente houve uma baixa ocupação da casa de show, pois se houve 20% do espaço com pessoas era muito. Não bastasse o vácuo, todos se mantinham sentados, sem animação e com baixíssima interação, parecendo que era uma orquestra e não uma banda de rock. E não por falta de esforço da banda, que fique claro! Além disso, ninguém cantava as músicas. Basicamente os sergipanos (eu e uma colega) cantávamos as músicas, levantávamos e sabíamos que não era um recital.

Portanto, se a The Baggios está preparada para o mundo, o mundo ainda não está preparado para The Baggios. A banda é sensacional no palco e tem um som que traz algo de interessante em um cenário fonográfico que é um vazio de ideias, um quase permanente ocaso criativo. Se em casa, Sergipe/Nordeste, a The Baggios estremece os lugares, todos cantam as músicas e vão com camisas da banda no show, em São Paulo o público fez parecer uma apresentação de uma banda de local distante para hipster musicais. Indo agora para Europa, já tendo tocado na América do Norte, a The Baggios já tem o reconhecimento, mas ainda falta fincar o pé na cabeça das pessoas, e quanto mais show ocorrerem em maiores distâncias, mais o mundo se tornará como sua casa.