Opinião Sincera | Resist (Within Temptation)

 

No começo de fevereiro foi lançado Resist, sétimo álbum de estúdio dos holandeses do Within Temptation. O primeiro álbum da banda em cinco anos (depois do Hydra em 2014, de um projeto solo da frontwoman Sharon em 2018, e de um longo bloqueio criativo) mostra uma evolução grande, mas natural, de tudo que a banda tem apresentado. Só não é o melhor da carreira porque existe o insuperável The Unforgiving, de 2011.

O álbum tem um conceito bem geral futurístico, até distópico, inspirado pelo momento político no mundo e pela relação da banda com a era digital. Eles abraçaram isso nas fotos promocionais, que parecem saídas de um filme de sci-fi; no visual dos clipes, que tem um quê de Star Wars e Armageddon; e no próprio som, com a influência eletrônica mais forte que nunca. A Metal Hammer de outubro de 2018, que tem uma matéria especial sobre o álbum, define que ele “aponta a mira para os tempos cada vez mais digitais que vivemos e o que significam para nossos direitos, nossa privacidade e nossa própria humanidade” e “canaliza um assunto que tem assombrado Sharon e Robert”. [Não é uma distopia à la “California 2019” do My Chemical Romance, mas tem lá suas semelhanças.

Na entrevista a essa mesma edição da Metal Hammer, Sharon disse: “Você acha que tem muita liberdade, mas, ao mesmo tempo, não tem. Há vários programas sendo desenvolvidos que você acha libertadores porque dão mais opções de se conectar socialmente, mas sua liberdade está diminuindo.” Robert ainda acrescentou que “sua liberdade de escolha está ali, mas na verdade, sem você perceber, eles estão direcionando você”. Lembra o que aprendemos com um certo jogo de tiro em cidade submersa.

É um tema atual, são questionamentos que têm aparecido bastante. Vale lembrar que o Angra, em seu último álbum ØMNI, fez uma crítica pesada à nossa relação atual com a exposição, a vaidade e as redes sociais na música “Black Widow’s Web”. A “viúva negra” foi interpretada pelas vozes de Sandy e Alissa White-Gluz:

Aqui, apesar de as letras das faixas individuais não terem tanta conexão entre si como tinham no The Unforgiving, que realmente contava uma história, a maioria aborda o tema geral de liberdade e luta – mesmo que cada uma por um lado. A abertura, “The Reckoning”, foi definida em mais de uma review como “um chamado às armas”, e não há expressão melhor. Versos como “nossa liberdade vale tudo” e “sem medo, você quer acabar com a dor” são embalados por alguns dos riffs mais pesados da banda até hoje e toques eletrônicos de uma forma completamente empolgante:

As participações especiais que foram parte importante do Hydra (de Tarja Turunen a Xzibit) também estão presentes aqui. São três vocalistas convidados: Jacoby Shaddix (Papa Roach), Anders Fridén (In Flames) e Jasper Steverlinck (Arid). Shaddix e Fridén aparecem nas músicas mais pesadas, principalmente como complemento à voz suave de Sharon.

Já a participação de Steverlinck fica em “Firelight”, balada que foi originalmente composta para o projeto solo de Sharon, My Indigo. Isso é perceptível, mas só o suficiente para capturar a atenção mesmo, já que ela não destoa do álbum em momento algum. O tema dessa faixa bem dramática é a vulnerabilidade que vem com o amor, em qualquer forma que seja.

“Supernova”, minha favorita, é uma que destoa do tema geral. Na verdade, foi inspirada pela morte do pai de Sharon, e usa metáforas e referências ao espaço para falar de perda (“estou esperando a luz da sua supernova, seu último adeus”) e das lutas internas que parecemos estar sempre travando (“me afogando na neblina e tudo o que quero é afundar mais”). O clipe desenvolve essa segunda questão, acompanhando duas Sharons que parecem representar a luz e a escuridão internas:

Se as letras não têm tanta relação direta umas com as outras, a sonoridade do álbum, por outro lado, é extremamente coesa. Lendo as entrevistas, parece que isso realmente foi uma preocupação para eles, e ouvir só confirma. Tudo faz sentido dentro daquela unidade e no conjunto da discografia: o metal e os elementos sinfônicos estão ali, o pop e os elementos eletrônicos também. Além disso, é um álbum bem curto: 10 faixas, 47 minutos. Mesmo tendo algumas músicas que chamam mais atenção e outras que ficam mais apagadas, não dá nem tempo de perder o fôlego.

Só dá vontade de ligar o repeat mesmo.