Opinião Sincera | Estrada Sem Lei

 

Estrada Sem Lei é mais uma produção original da Netflix dirigida pelo diretor texano John Lee Hancock. Queria ressaltar aqui o “texano”, por que talvez isso tenha influenciado no tom do filme, vou explicar mais na frente a razão. O filme conta a história da caça ao famoso casal de ladrões Bonnie e Clyde. Mas não faz isso na ótica dos ladrões, mas sim pela perspectiva de quem tá perseguindo. Os responsáveis por fazer o papel do gato nessa jornada são dois agentes aposentados da lendária unidade especial policial Texas Rangers, Frank Hammer (Kevin Costner) e Maney Gault (Woody Harrelson). E sim, o filme é baseado em fatos reais.

A intenção do filme, ao contrário de outros que retratam a vida de Bonnie e Clyde, não é glorificar o casal ou justificar suas atrocidades, tratando-os como Robin Hood. É justamente o contrário, o filme não os interpreta como um casal apaixonado revolucionário, ele mostra para o telespectador dois personagens sanguinários que matam sem hesitar. Um grande exemplo disso é que a face dos atores que os interpretam quase não aparece. Tratando os dois como monstros sem face nem coração. É aqui que digo que a origem texana do diretor pode ter influenciado essa abordagem mais crua e menos romantizada dos feitos do casal de bandidos, pois o Texas é um estado mais conservador, e isso fica evidente na ótica pela qual o filme se desenrola: a dos policiais. A intenção dele não é mostrar a vida de um amor proibido, mas sim o trabalho policial e político que foi feito para se chegar até os dois. A visão política não é de glorificação do governante que mandou caçar ambos, é justamente o inverso, pois ele mostra a real intenção política ao ter a cabeça do casal como prêmio.

Outra ótica mostrada no filme e que também é totalmente destoante do que se vê normalmente em obras de ficção quando o assunto é Bonnie e Clyde é o sentimento da população quanto aos dois. Como se sabe, o casal era admirado pela população por onde passavam, eram celebridades, pois distribuíam parte dos “lucros” dos seus roubos com os populares. Essa admiração é exemplificada de forma doentia no filme, pois o diretor consegue demonstrar a nossa capacidade em glorificar as pessoas erradas. Durante toda a obra são mostradas as atrocidades cometidas pelos bandidos e, mesmo assim, por onde passam, as pessoas ficam histéricas com a presença deles. O que nos faz questionar: até que ponto nossa sociedade é capaz de apoiar bandidos, desde que nos deem migalhas? O que hoje se vê nas favelas, onde a população local muitas vezes apoia traficantes simplesmente por lhe darem migalhas frutos do tráfico e muitas mortes, também era visto no Texas há quase 100 anos. Até que ponto vamos nos contentar com migalhas, sejam de bandidos ou políticos, e seremos protagonistas da nossa própria história? Fica aí a reflexão...

Mas nem tudo são flores. O roteiro do filme é um pouco cansativo, dava pra cortar pelo menos uns 40 min dos seus 133. Muitas vezes me peguei mexendo no celular e tendo que voltar algumas cenas pra ver se aconteceu algo de relevante. Outro ponto é que, apesar da ótima atuação do Kevin Costner e do Woody Harrelson, não se consegue criar uma ligação emocional com os dois, pois não é visto um propósito maior em suas jornadas a não ser matar dois bandidos. O filme não consegue passar o que significa para a história a morte de Bonnie e Clyde, e não consegue apresentar as consequências disso. O ponto final do filme é isso, não há uma causa maior, uma razão mais profunda. Se o filme condena os bandidos por matar sem propósito, por que faz o mesmo com eles? Se essa foi a intenção do diretor, ele não conseguiu demonstrar que de fato foi sua intenção, ficou parecendo mais uma falta de maior elaboração do roteiro. Isso é demonstrado pela sua finalização, que foi seca, sem grande conflito, foi um final por si só. Quando você estiver assistindo, irá pensar: “É isso? Não vai acontecer mais nada? Foi muito fácil para ser verdade.”

Um ponto extremamente positivo do filme é a sua ambientação. A década de 30 foi construída perfeitamente, um Estados Unidos em plena industrialização, ainda com estradas de terra, e a ascensão da paixão por carros do americano, demonstrada pelo destaque que dá aos mesmos. As vestimentas, os carros, os cenários, costumes e armas são demonstrados muito bem, conseguindo ambientar o telespectador em uma época tão conturbada e de muitas mudanças. Outro ponto interessante é que, ao final, ele mescla o filme com cenas reais da época, demonstrando que a ambientação do filme foi bem-feita. E que a reflexão que ele propôs foi real. Você entenderá sobre o que estou falando.

Estrada Sem Lei não é um super filme. É um bom filme, não espere muito mais do que isso, assista despretensiosamente. Não tem muitos alívios cômicos e é um clássico filme gato e rato, onde o gato a todo momento chega cada vez mais perto do rato e isso vai escalando a tensão. Sim, vale a pena assistir e tirar reflexões a partir dele.

Estrada Sem Lei (The Highwaymen) – EUA, 2019

Direção: John Lee Hancock

Roteiro: John Fusco

Elenco: Kevin Costner, Woody Harrelson, Kathy Bates, John Carroll Lynch, Thomas Mann, Dean Denton, Kim Dickens, William Sadler, W. Earl Brown, David Furr, Jason Davis, Josh Caras, David Born, Brian F. Durkin, Kaley Wheless, Alex Elder, Emily Brobst, Edward Bossert

Duração: 133 min.