Opinião Sincera | Rocketman

 

Rocketman é uma cinebiografia musical que faz jus ao gênero. Dirigido por Dexter Fletcher e escrito por Lee Hall, o filme não poupou figurino, música, ousadia e sinceridade ao contar a história conturbada de uma das maiores estrelas do pop que o mundo já conheceu: Elton John. Mais que sua história de ascensão como músico, sua história de superação e seu reencontro consigo mesmo após escapar quase sem vida da depressão e do uso excessivo de drogas. Certamente ele é uma das poucas lendas de sua época que viveu para contar sua história e ele faz isso plenamente.

Fazendo uma rápida comparação com Bohemian Rhapsody, o filme de mesmo gênero mais recente e que teve muita repercussão nas premiações mundo afora, Rocketman o superou em todos os aspectos.

Á primeira vista parece uma cinebiografia como outra qualquer. A ascensão, o auge, a queda e a volta por cima do artista, mas Dexter Fletcher muda um pouco essa ordem e deixa as coisas muito mais interessantes. A forma como a história é contada é única, assim como Elton John: extravagante, brega e cheio de criatividade.

Quem dá vida ao cantor é Taron Egerton, e aqui paro para falar de seu destaque no filme. Não é exagero falar que Egerton vem se mostrado um dos atores mais versáteis de Hollywood. A estrela da franquia Kingsman se mostrou bom em ação, drama e agora dançou e cantou. Pois é. Diferentemente de Bohemian Rhapsody, as músicas não foram editadas e dubladas e sim regravadas em uma versão para o filme na voz e nova interpretação de Taron Egerton. Além disso, ele lembra fisicamente o cantor em diversos momentos do filme. Ele soube reproduzir os trejeitos de Elton de modo muito espontâneo, a maneira como anda, o jeito de sorrir, de falar e de cantar... Ele praticamente desaparece no papel. Com certeza fruto de muito esforço e treino e talvez da pressão de fazer isso na frente do próprio Elton John, que acompanhou as gravações. Ele se entregou completamente ao papel; sem sombra de dúvida foi a melhor atuação da carreira do ator e talvez esse seja o grande motivo do sucesso do filme.

O filme todo é um show de talentos. Taron Egerton contracena com Richard Madden (Game of Thrones e Bodyguard), que interpreta seu empresário e amante John Reid, e com Bryce Dallas Howard (Jurassic World), no papel se Sheila Eileen, sua mãe. Quem divide a cena com ele o tempo todo é Jamie Bell (Quarteto Fantástico e Expresso do Amanhã), que interpreta o letrista e melhor amigo de Elton John, Bernie Taupin. Os dois passam muita química juntos. Dá pra sentir que vão ser amigos por longos 50 anos de fato.

Voltando ao filme, quem conta a história é o próprio cantor. O filme começa de trás para frente, e Elton vai relembrando os acontecimentos desde a sua infância sofrida, quando ainda se chamava Reginald Dwight e seus pais eram totalmente indiferentes a ele. Até que sua avó Ivy (Gemma Jones) nota sua habilidade nata com as teclas do piano e o encoraja a ter aulas. A partir daí é a história de ascensão dele no mundo da música, de abandono e de entrega às drogas. Mas é, principalmente, uma história de perdão e redescobrimento.

Cada momento do filme tem uma cena de musical com um tom pessoal que é de arrepiar. E o que é ainda mais fabuloso em relação à Bohemian Rhapsody: TODO MUNDO CANTA NO FILME. O diretor conseguiu encontrar o momento certo de fazer todo mundo se expressar através das músicas de Elton John, como em I Want Love. Não meras dublagens. É como se fosse a história por trás das músicas; verdadeiros insights sobre as letras mais famosas dos anos 70 e 80 do cantor. Algumas destas sequências musicais permitem aprofundar melhor as emoções das personagens, além de permitir fortes interpretações, principalmente de Taron Egerton e Jamie Bell, como em Tiny Dancer, Your Song e Goodbye Yellow Brick Road. É um verdadeiro espetáculo, cada uma com uma interpretação muitíssimo original, lembrando um musical da Broadway, dando um toque de fantasia a uma história tão real.  Cada música teve seu momento. A música tema, Rocketman, teve a interpretação, a meu ver, mais bonita. Muito pessoal em relação a vida de Elton, emocionante e vimos um show do Taron. Vale ressaltar que todas as músicas são legendadas e as letras trazem uma história que tem tudo a ver com a cena.

Quando assisti aos trailers eu pensei que isso ia deixar o filme fraco. O resultado foi o contrário. Nas cenas de alto consumo de drogas em que ele estava totalmente chapado, Dexter abusava do elemento fantasia, deixando até um pouco nonsense. Essa foi uma jogada genial. Ele também fez um excelente trabalho ao mostrar o cotidiano alucinado da fama, ao som de Pinball Wizard, com uma câmera e um palco giratórios, misturados às drogas.

Não posso esquecer o romance, mesmo que breve, que rolou entre Elton e seu empresário John Reid interpretado pelo grande sucesso britânico Richard Madden. Elton sempre foi homossexual e o filme reservou momentos para mostrar isso. Eu não senti que o filme passou uma confusão sexual, foi algo muito mais natural e espontâneo do que pensamos ter sido, mas obviamente sem menos escândalos. Ele se envolveu com seu empresário e esse foi o único romance do filme. O diretor quase caiu no clichê do empresário desalmado que destruiu a vida do artista. Mas ele mudou o foco e Elton assume as rédeas de sua vida, ficando Reid no esquecimento.

Se você está preocupado com beijo e cenas de sexo gay, pode relaxar. É tudo muito rápido, com pouca luz e distante. Além disso, a câmera vai saindo de fininho. Foi bem sutil. Depois disso, a outra cena que poderia preocupar os conservadores seria a cena de orgia ao som das batidas fortes de Bennie And The Jets. Mas foi tudo estilizado e coreografado, além do jogo de luzes. O foco mesmo foi a interpretação belíssima de Taron Egerton.

Nada disso teria tido tanto impacto sem o figurino belíssimo e perfeito. Roupas idênticas, se não as mesmas usadas pelo artista durante sua juventude. Inclusive nos créditos eles colocam fotos de Taron e Elton usando o mesmo look e, obviamente, os mesmos óculos. Mesmo quem não é fã ou quem só ouviu falar conhece a coleção de milhares de óculos que o lorde inglês tem, e ela teve seu momento no filme. É muito interessante observar como o diretor de figurino usou esse elemento para ajudar na evolução do personagem. Fica bem evidente o momento em que ele deixa de ser Reggie e se torna o Elton que conhecemos hoje.

Quem é fã e conhece o vídeo clipe fica estarrecido com a semelhança na regravação de um trecho de I’m Still Standing. Foi como assistir a Elton John.

Como se o filme não bastasse, Elton John e Bernie Taupin escreveram uma música novinha em folha para o filme, que toca nos créditos: (I’m Gonna) Love Me Again, interpretada por Taron Egerton e por Elton John. A música é a história final que ele quer contar ao mundo, encerrando assim suas turnês. Ela foi lançada junto com o álbum Rocketman: Music From The Motion Picture, produzido e composto por Giles Martin. O álbum tem todas as músicas reinterpretadas de Elton por Taron e está disponível em todas as plataformas digitais

Se você é fã de Elton John ou conhece algumas músicas, vai amar o filme, com certeza. Se não conhece as músicas, vale muito a pena assistir mesmo assim. É um filme belíssimo de ser visto. A história do artista em si é emocionante e foi muito bem contada. Não esqueça que o próprio cantor acompanhou as gravações e assinou embaixo. Você vai sair de lá cantando “I’m Still Standing” no mínimo. É uma história de superação linda e passa uma mensagem ao público, a que devemos perdoar e seguir em frente. Vale muito a pena.